FIS Ameris

Um fundo de investimento impact first

FIS Ameris

Um fundo de investimento impact first

Chile / Gestora de ativos de impacto social e/ou ambiental

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O Fundo de Investimento Social Ameris Capital(FIS Ameris) ajudou a desenvolver o ecossistema de investimentos de impacto no Chile desde sua aposta emimpacto primeiro (impact first), focada em apoiar iniciativas com impacto social e ambiental.

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Antecedentes e contexto

O Chile vem apresentando crescimento e desenvolvimento econômico atípico em comparação com os outros países da região. Em 2010, tornou-se o primeiro país latino-americano a ingressar na OCDE, o que na época representou um reconhecimento internacional destacado, duas décadas após seu sistema democrático e suas políticas econômicas serem reformadas. O país atingiu um crescimento anual de 5% entre 1980 e 2010¹.

Esse crescimento econômico sólido e sustentado permitiu amortecer os impactos do contexto internacional volátil e contribuiu para a redução da pobreza². No entanto,17% da população continua vivendo em pobreza relativa³ por falta de renda suficiente. A desigualdade continua sendo um desafio para o Chile, como mostra seu coeficiente de Gini, que continua acima do constatado em mais da metade dos países da região e que, em 2017, era de 0,44⁴.

Isso representa uma elevada desigualdade em termos da “oferta de serviços de educação e saúde e a segregação dos mercados de trabalho”⁵. De certa forma, isso se traduziu em grupos populacionais que percebem poucas oportunidades, ao passo que aqueles com renda mais elevada continuam a aumentar seus ganhos⁶. “Em 2016, o número de famílias chilenas de alto patrimônio aumentou para um total de 119, concentrando 15% da riqueza nacional.”

A FIS Ameris inovou na forma de enfrentar os problemas sociais e ambientais na base da pirâmide social por intermediar capital privado para instituições sociais e/ou ambientais.

Esse complexo panorama de desigualdade e concentração da riqueza foi um dos motivos pelos quais as famílias de alto patrimônio buscaram trazer inovação para os mecanismos de geração de impacto social e ambiental à sua disposição. Foi assim que surgiu uma nova ferramenta, pouco conhecida até então no país: o investimento de impacto. Isso representou uma mudança de paradigma, no qual os investidores chilenos buscavam obter um certo retorno financeiro ao gerar impacto social e/ou ambiental.

Assim, em 2010, a Claro y Asociados, hoje Ameris Capital, empresa de serviços financeiros, decidiu apostar nesta iniciativa, dando início aos Fundos de Investimentos Sociais da Ameris (FIS Ameris). Esse foi o primeiro fundo privado de investimentos de impacto, criado com o objetivo de investir em empresas e organizações sociais e/ou ambientais precisando de financiamento para crescer, potencializar seu impacto e atingir a sua autossustentabilidade.

¹ OCDE (2010) “ Chile, primer país sudamericano en unirse a la OCDE “. Comunicado de imprensa Publicado em
² Banco Mundial (2020) “ Chile Panorama general “. Disponível em
³ Pobreza relativa da renda refere-se à proporção de pessoas com renda familiar disponível abaixo de 50% da mediana nacional (OCDE, 2020, 2) OCDE (2020) “¿Cómo va la vida en Chile?” em Better Life Initiative Country. Disponível em
⁴ Banco Mundial (2020) “Chile Panorama general “. Disponível em
⁵ Banco Mundial (2020) “Chile Panorama general “ Disponível em
⁶ “Em 2015, os 10% com maior renda no país ganhavam 26 vezes mais do que os 10% com renda mais baixa” (Banco Mundial, 2020)

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Descrição

 

A FIS Ameris inovou na forma de enfrentar os problemas sociais e ambientais na base da pirâmide social por intermediar capital privado para instituições sociais e/ou ambientais, utilizando a estrutura de um fundo de investimento privado – um veículo amplamente conhecido no mercado financeiro. Dessa forma, como financiador de projetos, o fundo desenvolve instrumentos financeiros eficazes de triplo impacto (social, ambiental e econômico).

Por seu pioneirismo em investimentos sociais e no uso de mecanismos financeiros do setor privado no Chile, a FIS Ameris desempenha o papel de articuladora e gestora desse setor. Isso vem gerando oportunidades de fortalecimento e crescimento para muitas organizações que, por estarem em estágio inicial de gestão, não conseguem ter acesso ao setor financeiro tradicional.

Empresas e organizações sem fins de lucro com pelo menos dois anos de execução podem ser potencialmente candidatas a financiamento por parte da FIS Ameris, desde que busquem uma escala de operações que lhes permita ser financeiramente sustentáveis e gerar, por meio de suas operações, um impacto social e/ou ambiental com os serviços ou produtos que oferecem.

Isso significou uma quebra de paradigma para investidores e family offices, que consideram que os recursos para a filantropia fazem parte de um outro portfólio de investimentos. Por isso, como explica Maria José Montero, Diretora Executiva e Fundadora da FIS Ameris, a empresa busca chegar diretamente aos proprietários dos recursos, e não a intermediários, para que eles possam tomar a decisão de juntar a carteira da filantropia com a do investimento.

Empresas e organizações sem fins de lucro com pelo menos dois anos de execução podem ser potencialmente candidatas a financiamento por parte da FIS Ameris.

Em 2010, iniciou-se o processo de criação do FIS 1 com US$ 4,5 milhões, que terminou em 2020. Desde a sua criação, pensou-se em uma lógica de doações para a geração de impacto social, com o conceito de investimento social nunca sendo incorporado. O primeiro fundo permitiu demonstrar que havia uma forma diferente de investir e agir em parcerias para conseguir esse impacto. O principal executor foi a Ameris Capital, que forneceu apoio não financeiro para a consolidação e execução do fundo com a participação do talento humano de diferentes áreas da empresa.

Uma parceria que se mostrou muito importante nesse primeiro momento foi a realizada com a Fundação Avina, que permitiu aproveitar melhor as redes internacionais e expôs a FIS Ameris às conversas do ecossistema. Além disso, como aponta a Diretoria Executiva da FIS Ameris, contaram com parceiros estratégicos multissetoriais que acreditavam nesse novo conceito de impacto primeiro (impact first) por meio de um fundo de investimento privado. Entre eles estão a CORFO, Agora Partnerships, Casa Co, Fundación Más, Initiative 2020, Simone de Cirene, Sistema B, Youth Action Net Chile, Techno serve, a Universidade Católica do Chile, Carey Abogados, pessoas do sistema bancário privado e a NESsT (ver o caso do Peru neste relatório), entre outros.

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Implementação

Desde o início, o fundo foi pensado a partir de projetos, e não apenas em termos de investimentos ou financiamentos concedidos, pois, além do apoio financeiro, o objetivo é a autossutentabilidade da organização. Portanto, para fazer uma boa seleção de entidades capazes de atingir esse objetivo, a FIS Ameris segue critérios rigorosos para o cumprimento do princípio de impact first. Atualmente, eles são:

  • Modelo de negócios comprovado e (potencialmente) rentável.

  • Direcionado a resolver um problema da base da pirâmide. A organização está comprometida em gerar um impacto social e/ou ambiental positivo.

  • Equipe de excelência 100% dedicada.

  • Empresa em conformidade com a legislação do Chile.

  • Dois anos de vendas.

  • Demonstrações financeiras auditadas do último ano de operação⁷.

  • Teoria de mudança e indicadores de resultados socioambientais.

  • Proposta de investimento de pelo menos US$ 360 mil (UF 10.000) para crescimento.

  • Desenvolvimento de um modelo financeiro e arcabouço jurídico de investimento.

Se atender aos critérios, a empresa ou instituição social é potencialmente elegível para financiamento. Das organizações que atenderam aos critérios do FIS 1.0, sete foram escolhidas⁸: Late, Techo, Lumini Chile, Promoeduc, La Protectora de la Infancia, CEIA Quimahue e Chile Recicla.

Após a seleção, o processo para efetivar o investimento demorava de três meses a pouco mais de um ano, dependendo de a organização ter as capacidades iniciais, caso contrário, um processo de apoio era oferecido para ela atingir o nível necessário de preparo.

E a partir do FIS 2, foi feita uma modificação nos requisitos de informações e documentos, de modo que, se uma organização não tiver as demonstrações financeiras auditadas ou precisar melhorar sua gestão socioambiental e/ou jurídica, mas atender aos critérios, pode ser “potencialmente elegível para um pré-investimento por um determinado período, após o qual deverá atender a todos os requisitos para acessar a etapa de investimento”⁹.

Esse pré-investimento é de US$ 40.000 em média e foi criado com base nas experiências e lições aprendidas com o primeiro fundo, já que constataram que era uma boa opção para mitigar riscos e aumentar a contribuição para outros projetos com mais capacidades desenvolvidas para gerenciar o capital do fundo com eficiência.

Após a seleção, o processo para efetivar o investimento demorava de três meses a pouco mais de um ano.

Financiamento personalizado

Os investimentos deste fundo são de alto risco e, desde o início, são pensados dentro da lógica do capital paciente. No caso do primeiro fundo, os investidores viam esses recursos quase como doação, uma vez que desconheciam o instrumento e, por causa do risco envolvido, não esperavam retorno financeiro.

Os investimentos deste fundo são de alto risco e, desde o início, são pensados dentro da lógica do capital paciente.

Contudo, houve de fato um retorno econômico, o que representou um sucesso para os investidores, pois geraram um impacto socioambiental, mas também obtiveram retorno financeiro. Por isso, a maioria dos investidores do FIS 1.0 decidiu recriá-lo de novo como o FIS 2.0, com investimentos de US $ 750.000 em média.

No primeiro fundo, aproximadamente 50% dos financiamentos concedidos foram na forma de dívida, 30% de capital acionário e 20% de notas conversíveis em ações. Isso foi definido conforme as especificidades e necessidades de cada caso, porém, como foi visto ao longo do tempo, os mecanismos híbridos são os mais adequados para a FIS Ameris por permitirem atender às especificidades das organizações com propósito social (OPS) de forma mais flexível e sob medida.

"Hoje já investimos em um total de 19 projetos. Em alguns, entramos com capital acionário (equity), dívidas conversíveis e, em outros, com dívidas. Sabemos que alguns casos não seriam financiados pelo setor financeiro tradicional. Trabalhar em impact first apresenta muitos desafios e um trade off entre rentabilidade e impacto".

María José Montero.

Apoio não financeiro

A construção, projeção e execução da própria FIS Ameris foi possível graças ao apoio não financeiro de múltiplos atores. Principalmente no caso do primeiro fundo, as pessoas da Ameris Capital deram apoio para sua estruturação. Além disso, a participação pro bono dos membros do comitê de investimentos, que se reuniram mensalmente durante dez anos, constituiu um apoio intelectual e humano fundamental. Os diferentes olhares, conhecimentos e experiências de seus membros representam um ponto chave para o bom funcionamento da FIS Ameris.

Agora, quanto ao apoio prestado às organizações do portfólio, ele é planejado de acordo com as necessidades e especificidades de cada caso. Os tipos de apoio oferecidos são em nível estratégico, participando dos conselhos de administração, de gestão, jurídicos, financeiros, técnicos e de impacto, conforme necessário. A partir da experiência com o primeiro fundo, constatou-se que era fundamental apoiar o fortalecimento do modelo de governança, e se chegou à conclusão de que, em todos os casos, é necessário apoio na gestão e mensuração dos resultados de impacto.

⁷ Inicialmente, eles pediam as demonstrações financeiras auditadas dos últimos 3 anos, mas perceberam que era uma demanda muito exigente para as organizações com as quais estavam trabalhando, por isso fizeram a mudança para um ano no caso do FIS 2.0.
⁸ No link a seguir, as organizações escolhidas para o FIS 1.0 e o FIS 2.0 podem ser consultadas
⁹ Disponível no site da FIS Ameris ser consultadas

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Resultados

A FIS Ameris revisa periodicamente as variáveis sociais e ambientais por meio de uma avaliação interna e externa. Na interna, são avaliados: i) os indicadores de impacto definidos a partir dos resultados esperados na teoria de mudança de cada organização e tomando como referência o repositório de indicadores IRIS+; (ii) metas dos ODS; (iii) um olhar transversal sobre a abordagem de gênero da instituição;¹ e (iv) a inclusão de práticas de ESG (ambientais, sociais e de governança corporativa) em sua gestão. Os resultados acumulados, diretos e indiretos, da medição interna entre 2010 e 2020 são:

  • US$ 14 milhões de capital administrado em dois fundos de investimentos.

  • 19 projetos socioambientais financiados e apoiados.

  • 37 apoiadores / investidores.

  • 18.992 pessoas diretamente beneficiadas.

  • 19.429 toneladas de resíduos recuperados.

  • 1.372 postos de trabalho das organizações do portfólio.

  • 924 mulheres contratadas diretamente por organizações do portfólio.

Por outro lado, a avaliação externa é realizada anualmente, por meio de um terceiro legítimo que valida os resultados do portfólio com seu próprio modelo de avaliação. Essa avaliação foi realizada com o sistema de avaliação GIIRS¹¹. Em 2012 e 2019, a FIS Ameris ficou entre os dez melhores fundos de investimentos de impacto do mundo, demonstrando o bom trabalho realizado.

A partir de 2020, o processo de avaliação passou a ser realizado com o Sistema B,
¹² segundo o qual, em 2019, o portfólio apresentou alto desempenho em seus resultados gerais, com uma média superior à de outras empresas no Chile.¹³ Os resultados operacionais e de Modelos de Negócios de Impacto (MNI) são bastante similares.¹ “Ressalta-se que todas as organizações no portfólio possuem processos e estruturas que, na perspectiva da Avaliação de Impacto B, são próprias de um MNI, o que fala de uma orientação intencional para gerar impactos positivos, que perpassa transversalmente todas as organizações que compõem o portfólio avaliado”.¹⁵

A avaliação externa, é realizada anualmente, por meio de um terceiro legítimo que valida os resultados do portfólio com seu próprio modelo de avaliação.

 

Aprendizados e perspectivas

Para a FIS Ameris é um desafio crescer como fundo, aumentar o tamanho dos aportes de investimento, da oferta e da demanda, mantendo a primeira abordagem de impact first, pois no momento tem uma capacidade limitada que lhe permite se concentrar apenas em pequenos projetos. E, nos projetos existentes e nos que estão por vir, se reconhece a necessidade de continuar participando nas diretorias das organizações financiadas.

É também um desafio conseguir um maior retorno financeiro para os investidores, visto que já foi identificado que eles estão exigindo isso cada vez mais. E, embora haja indícios de que o setor está se profissionalizado e a FIS Ameris tenha conseguido atrair um investidor institucional, a empresa também está buscando aumentar sua rede de investidores.

Em termos de percepção qualitativa, a diretora da FIS Ameris ressalta como excelentes resultados a contribuição para a criação de uma indústria de investimentos com abordagem de impacto no Chile, a capacidade de introduzir uma mentalidade de divulgação (reportability) e medição dos impactos nas organizações do portfólio, a autossutentabilidade de entidades que antes dependiam de doações, a consolidação de uma rede de investidores¹ e o trabalho ecossistêmico mediante parcerias com diferentes atores.

¹⁰ A abordagem de gênero não é um objetivo em si para a FIS Ameris, mas é levada em conta para análise, com base em recomendações do BID Invest.
¹¹ O sistema de avaliação americano GIIRS, era o mais utilizado pelos fundos de investimentos de impacto até fechar suas operações com esses fundos em 2019.
¹² Essa é a filial da empresa americana B Lab, que avalia os resultados sociais e ambientais de empresas que operam em mercados desenvolvidos e emergentes em todo o mundo Disponible em
¹³ No seguinte link está disponível o relatório completo da avaliação do Sistema B para o ano de 2019: Disponible em
¹⁴ Existe uma alta variedade de formas como as organizações do portfólio geram impactos positivos significativos através de seu modelo de negócios; seus desempenhos são similares, com todas atingindo notas próximas aos 40 pontos no MNI.
¹⁵ Está no relatório de impacto da FIS Ameris, elaborado pelo Sistema B para 2019. Não é acessível ao público.
¹⁶ No FIS 1.0 havia 21 investidores, a maioria dos quais reinvestiu no FIS 2.0.

Permanece o desafio de mudar a mentalidade e o paradigma para adotar uma cultura de medição, com atores capacitados e habilitados em todas as frentes.

Quanto ao ecossistema, há desafios sobre como escalar o setor, continuar fazendo divulgação e manter um mapeamento dele. Além disso, permanece o desafio de mudar a mentalidade e o paradigma para adotar uma cultura de medição, com atores capacitados e habilitados em todas as frentes, tanto do ponto de vista do investidor quanto da perspectiva do órgão regulador, do Estado e dos investidores.

"Devido ao contexto atual, todos devemos nos questionar sobre como estamos fazendo as coisas. O investimento de impacto é uma oportunidade para o mundo financeiro contribuir, a partir do que sabe fazer, para uma reativação sustentável".

María José Montero.

Por outro lado, como fundo, a FIS Ameris vem buscando dar continuidade à proposta de investimento impact first, já que não reconhece muitos outros atores que possam levar adiante essa continuidade e, por isso, criou a versão 2.0. No final de 2020, terá início o FIS3.0.