Projeto Utopia

trabalha para a transformação do campo colombiano

Projeto Utopia

trabalha para a transformação do campo colombiano

Colômbia / Instituições acadêmicas e centros de pensamentos

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A Universidade de La Salle criou o Projeto Utopia para oferecer uma oportunidade de ensino superior de alta qualidade em engenharia agronômica para jovens vulneráveis no campo colombiano. No último ano de estudo, os estudantes retornam a seu lugar de origem e iniciam um projeto produtivo com capital semente concedido pela mesma universidade.

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Antecedentes e contexto

A Colômbia viveu um conflito armado de mais de cinquenta anos com consequências devastadoras para os habitantes do campo e para o desenvolvimento rural do país: violência, deslocamento forçado, alienação de terras e outros recursos, recrutamento de jovens e culturas ilícitas, entre muitos outros. Tudo isso se transformou em uma situação crônica e alarmante de desigualdade para os jovens do campo. Segundo dados do DANE (Departamento Administrativo Nacional de Estatística), a taxa de desemprego nas áreas rurais do país é de aproximadamente 9,3%¹. Segundo um estudo sobre o campo colombiano, os pobres rurais são “3,2 vezes mais pobres que os urbanos, que têm melhores condições em matéria de saúde, educação, habitação e serviços de água encanada e esgoto”. O mesmo estudo também menciona que apenas 36,4% dos domicílios rurais têm acesso à terra².

Essas realidades também resultaram em um setor agropecuário colombiano estruturalmente fraco, fazendo com que os habitantes no campo tenham poucas oportunidades de desenvolvimento e crescimento. Muitos jovens migram para as cidades em busca das oportunidades que não encontram em seus territórios e, ao tomarem essa decisão, aumentam a lacuna da desigualdade e a falta de desenvolvimento nas zonas rurais.

Em 2010, a Universidade de La Salle, instituição de ensino criada e dirigida pela Congregação dos Irmãos de La Salle, após analisar a situação no campo colombiano e as poucas oportunidades educacionais nas zonas rurais, que inclui a inexistência do ensino superior, decidiu empreender o Projeto Utopia. Esse projeto oferece oportunidades educacionais e produtivas para jovens provenientes das áreas rurais, afetados pela violência, falta de oportunidades e pobreza, a fim de transformá-los em engenheiros agrônomos com a melhor formação possível.

A Colômbia viveu um conflito armado de mais de cinquenta anos com consequências devastadoras para os habitantes do campo e para o desenvolvimento rural do país.

A partir desse ano, esse é um dos poucos campi universitários rurais no país focados em populações vulneráveis, jovens vítimas de violência, indígenas e afrodescendentes que não têm acesso ao ensino superior de alta qualidade.

¹ DANE (2020)). Gran encuesta integrada de hogares (GEIH) Mercado laboral.
² DNP (2015). El campo colombiano: un camino hacia el bienestar y la paz

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Descrição

O Projeto Utopia tem principalmente três objetivos:

  • Transformar jovens de ensino médio das áreas rurais afetadas pela violência, em engenheiros agrônomos com a melhor formação possível, utilizando a metodologia “aprender fazendo e ensinar demonstrando”;

  • Torná-los líderes do desenvolvimento rural integral e territorial para a transformação social e política do país;

  • Contribuir para a empresarização produtiva do campo mediante a implementação de projetos produtivos financiados para jovens em seus lugares de origem³.

O projeto tem a sua sede nas proximidades da cidade de Yopal, departamento de Casanare, nas planícies do leste da Colômbia.

³ Universidad de La Salle (s.f.). Objetivos y retos del Proyecto Utopía Disponível aqui

"O projeto está localizado em zonas rurais para que os jovens criem raízes no campo, queiram voltar ao seu lugar de origem e desenvolvê-lo. O futuro do país está em nosso campo por causa da variedade de climas e pela riqueza das terras".

Irmão Niky Alexánder Murcia

Reitor da Universidade de La Salle.

O Projeto Utopia foi possível graças ao investimento inicial de COP$ 42 bilhões (cerca de US$ 11.667.000 aproximadamente) realizado pela Universidade de La Salle, recursos com os quais foi construída e equipada a sede. Os primeiros parceiros filantrópicos do projeto foram a Conferência Episcopal Italiana, o Banco de Bogotá, a Fundação Aurelio Llano Posada, a Fundação Bolivar Davivienda e o Banco Pichincha. Posteriormente, outras importantes organizações privadas, públicas e internacionais, bem como pessoas físicas, se uniram por meio da venture philanthropy e do investimento social, com foco na geração de oportunidades de educação profissional com propósito para os jovens na ruralidade colombiana.

Atualmente (2020), são geridos recursos de mais de cem doadores, entre fundações, filantropos individuais, family offices, instituições financeiras, corporações, financiadores públicos, pessoas físicas e organizações internacionais⁴.

  Universidad de La Salle (s.f), Programa Apasionados por la Tierra. Disponível aqui

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Implementação

O programa acadêmico de Engenharia Agronômica oferecido pelo projeto tem uma duração de quatro anos. 12 quadrimestres começando na estação das chuvas, para que os estudantes possam aproveitar essas condições a fim de realizar as atividades práticas associadas com a terra e produção.

Todos os estudantes do projeto são bolsistas para que possam dedicar com exclusividade o tempo e a atenção necessários para concluir uma formação de qualidade. A bolsa de estudos abrange os quatro anos do processo de formação: sua residência e alimentação no campus nos três primeiros anos e o capital semente do projeto produtivo a ser implementado no último ano, quando retornam ao seu lugar de origem.

Todos os estudantes do projeto são bolsistas para que possam dedicar com exclusividade o tempo e a atenção necessários para concluir uma formação de qualidade.

O primeiro passo de cada turma é o processo de seleção dos estudantes. Essa é a etapa mais importante do projeto, pois minimiza os riscos de evasão e permite que aqueles que realmente precisam dela se beneficiem e estejam convencidos de retornar ao seu lugar de origem para gerar uma transformação social e política. Não há uma convocação aberta, a Universidade é responsável por encontrar os jovens de futura turma, apoiando-se em uma equipe que percorre durante seis meses os municípios selecionados a cada ano.

Financiamento personalizado

O mecanismo utilizado pela Universidade de La Salle para implementar o Projeto Utopia são as doações. A Diretoria de Filantropia, vinculada à Reitoria da Universidade, lidera a gestão da cooperação e captação de recursos técnicos, financeiros e em dinheiro para o financiamento dos projetos priorizados, ncluindo o Projeto Utopia. Esses recursos são alocados com base na intenção e vontade do doador, conforme o pactuado através de uma ata de compromisso, convênio ou outro instrumento que tenha sido utilizado para estabelecer os termos da doação.

A Diretoria de Filantropia faz um acompanhamento periódico ao longo de todo o processo para prestar contas ao parceiro ou benfeitor. As doações podem ser para o programa permanente de bolsas, para projetos de infraestrutura e equipamentos do campus ou para capital semente e patrocínio dos projetos produtivos dos estudantes.

Além da bolsa de estudos integral (COP$ 115.200.000, cerca de US$ 32.000 aproximadamente), no último ano de sua formação, os alunos recebem COP$ 10 milhões, o que equivale a US$ 2.778 para seu projeto produtivo. O valor exato desses recursos depende do plano de gastos apresentado.

Esses projetos são financiados por meio do Fundo Rotativo Cultivos de Paz⁵ da Universidade de La Salle e espera-se que, uma vez terminado o ano e obtidos os lucros com a venda dos produtos, os alunos devolvam o Capital Semente Patrocínio para que seja reinvestido nos projetos produtivos das seguintes turmas. A porcentagem de devolução depende do sucesso do cultivo.

Apoio não financeiro

A metodologia utilizada no curso acadêmico de engenharia agronômica é a de “Aprender fazendo e ensinar demonstrando “, permitindo uma interação constante entre a sala de aula, o trabalho de campo e a pesquisa. O que os alunos aprendem em sala de aula é aplicado no trabalho de campo por meio de práticas produtivas. A mistura de ambas as atividades permite o desenvolvimento de pesquisas, nas quais os jovens mostram o que está acontecendo por trás da produção. A universidade oferece técnica, tecnologia e ciência e, como princípio metodológico, os saberes ancestrais de cada indivíduo são respeitados, pois isso permite que a formação mantenha uma correlação com suas necessidades e realidades, focadas nos contextos de onde provêm.

⁵ Ibid

"Quando chegam à Utopia, os jovens encontram um propósito comum, querem sair adiante, estudar e fazer da Colômbia um país melhor. Isso permite que eles se tornem gestores de uma geração de paz, de pós-conflito, que irá construir novas e melhores oportunidades para o campo colombiano. Ou seja, no Projeto Utopia se formam não apenas profissionais agrônomos, mas também líderes que transformam a realidade em suas comunidades".

Luis Fernando Molano

Coordenador de Gestão de Recursos, Diretoria de Filantropia.

No ano em que os estudantes realizam seu projeto produtivo, uma equipe da universidade, formada por engenheiros agrônomos, administradores de agronegócios e engenheiros de alimentos, acompanha os jovens em seu desenvolvimento.

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Resultados

Em dez anos, entre 2010 e julho de 2020, se graduaram do programa 260 estudantes, e a taxa de evasão das turmas mais recentes é inferior a 5%.

A universidade é responsável pela medição do impacto na vida dos graduados
. Segundo o estudo, entre 2018 e 2019, cerca de 55% deles continuavam trabalhando como produtores-empreendedores. Dez graduados atuam ou atuaram como secretários de Agricultura, Desenvolvimento Econômico ou do Meio Ambiente em seus municípios; e em janeiro de 2020, um deles era prefeito municipal.

Alguns graduados voltaram às suas escolas rurais para transformá-las com seus conhecimentos; outros trabalham em projetos de substituição de culturas ilícitas com as Nações Unidas; e outros ainda se associaram à Federação Nacional dos Cafeicultores, entre outras instituições. Um dos graduados se tornou consultor da empresa Fruandes, em um projeto com a Fundação Bancolombia para o plantio e comercialização de cacau no Urabá antioquenho (vide o caso neste estudo). Além disso, segundo o estudo, 86% dos graduados têm rendimentos acima da média nacional das pessoas formadas em Engenharia Agronômica.

Nos projetos produtivos dos estudantes em seu lugar de origem, além do componente agronômico, são mensurados os componentes social, de pesquisa e empresarial ou de empreendedorismo. Isso faz com que a medição do sucesso do projeto incorpore diversas perspectivas. Foram elaborados indicadores técnicos que permitem avaliar o desempenho dos estudantes nas diferentes etapas do projeto e a capacidade que têm de resolver os problemas próprios da engenharia agronômica.

Os recursos entregues como capital semente tiveram, até agora, um retorno de 64%. 42% dos alunos devolveram todo o capital concedido. E isso é conseguido em municípios com baixa presença do Estado, dificuldades em questões de comunicação, infraestrutura precária e presença de diversas formas de conflito, fazendo com que sejam projetos de alto risco. No entanto, de acordo com a medição realizada no estudo, 89 graduados do projeto continuam com a sua atividade produtiva e já aumentaram a escala de seus projetos produtivos para se tornarem empresas, algumas delas com estratégias de cooperativismo, permitindo canalizar os esforços de agricultores da região para propósitos comuns, inclusive conseguindo exportar em alguns casos.

⁶ Flechas, David, Molano, Milton (2019), Medición del impacto del proyecto Utopía en la vida de los egresados del programa de Ingeniería Agronómica de la Universidad de La Salle. Informe final. Livros em acesso aberto. Universidade de La Salle (p. 7 e 83). Disponivel aquí.

"Depois de ter passado pelo Projeto Utopia, Hanner voltou para sua casa, onde cultivavam café. Tudo o que aprendeu ele implementou em sua cultura até quase triplicar sua produção. Os vizinhos começaram a ver o exercício, se associaram e entre todos conseguiram enviar um contêiner para Dubai, algo que eles nunca teriam imaginado".

Sylvia Castrillón

Diretora de Filantropia da Universidade de La Salle.

Graças ao programa de permanência e retenção de estudantes implementado no Projeto Utopia, foram definidos sistemas abrangentes de avaliação, monitoramento e acompanhamento do estudante para a prevenção da evasão, bem como mecanismos para seu controle, sem detrimento da qualidade. A taxa média de evasão acumulada desde a criação do programa acadêmico é de 24,7%. As primeiras turmas tiveram as taxas mais altas. Porém, à medida que o programa acadêmico ia se consolidando e os critérios se ajustando, essas taxas foram diminuindo até ser menos de 5% em algumas das turmas mais recentes. O projeto tem uma taxa de evasão mais baixa que todo o sistema de educação superior da Colômbia, que é de 45%.

Nos projetos produtivos dos estudantes em seu lugar de origem, além do componente agronômico, sãomensurados os componentes social, de pesquisa e empresarial ou de empreendedorismo.

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Aprendizados e perspectivas

Um dos maiores desafios deste projeto é a autossustentabilidade. A universidade continua pensando em iniciativas para que o próprio projeto possa alavancar as bolsas estudantis, como, por exemplo, o início de um projeto produtivo em terrenos nos arredores da sede. Porém, também considera que essa iniciativa deve ser entendida como um esforço do país, no qual diferentes atores, públicos ou privados, devem apostar.

O Projeto Utopia gerou um grande aprendizado na seleção dos alunos para as turmas, permitindo reduzir os riscos de evasão com a definição de critérios rigorosos de admissão. Além disso, os alunos selecionados devem passar por um processo de indução nas matérias básicas para reforçar seus conhecimentos, devido à baixa qualidade do ensino fundamental e médio em escolas e colégios rurais.

Esse reforço escolar representa um aprendizado relevante para esse tipo de intervenção, uma vez que devem ser consideradas muito seriamente as condições das populações beneficiárias e, até mesmo, as condições de seu contexto territorial.

A Universidade de La Salle demonstrou que o Projeto Utopia é um modelo de ensino superior, baseado nos princípios da venture philanthropy, que funciona e obtém resultados valiosos para o desenvolvimento profissional e pessoal dos participantes, podendo ser adaptado a outros contextos e a outras áreas acadêmicas como Educação rural, Zootecnia e Agroindústria.

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"No futuro, uma ideia que queremos desenvolver dentro do campus é abordar diferentes temáticas para transformar a ruralidade como um todo sistêmico e não apenas a parte de ser agricultor. Atender a cidadania rural, a educação, a engenharia, os negócios, tudo a partir do campo. Digamos que o Projeto Utopia ajude os territórios a sair adiante, desde um olhar sistêmico que aponte para a sustentabilidade ambiental e econômica das famílias".


Irmão Niky Alexánder Murcia.